Bestiário (16)

24 dUTC Abril dUTC 2010

S A G A

Gregório Raggio

O chão úmido recoberto lábil
Palhas folhas galhos flores trevos
Silente sigilo no arvoredo voraz
Irisando volúvel miragem
Algures sombras vento fachos luz e cerração
Recobre a neblina em névoa e ruço
O albor acossa a noite em fuga
Hesitante um trêmulo agito
A custo percebido ramo rebatido
Não é brisa ventania fruto em queda
Nem rolas gaviões anus aves fujonas
Fugaz treva em nódoa acinzentada
Súbito um estalo estalido crepitado
Um vulto sem face mal distinto
Viso semblante vulturino
Vulpino vunje vulnífico
Se aproxima lento da moita fronteiriça
Late a cadela com tal severidade
Atilada ataca temerária
Rosnos uivos surdos ferozes
Atrás do tronco protegido atiro
Os cães surgem e atacam sem rumo
Patas guinchos pandemônio
A fuga o susto estronda atroa aturde
Atropela guincha esturra o ódio a dor
Esboroa rasga dentes mordem perfurantes
Unhas garras ossos presas lancinantes
Sangue talhos mato gravetos partidos
Volta vem vai recua ataca avança
A fuga foge luta salta negaceia
A fuga foge o medo espaventa aterroriza
A fuga foge some brada vocifera
Balbucia estridor urra atola derreado
Em derredor devassa derreia derrapa
A fuga escapa livra salva safa escapole
A fuga surte silva urra mais longínqua
Silêncio súbito mata ingente laivos
Ramos pétalas sonora chuva bruma
Umidade visco lodo lhano solo
Sibila brisa fria fina alhures
Clarão nuvens brilhos jaças
Cambiante visualidade
Alem alvora
O dia

Bestiário (15)

17 dUTC Abril dUTC 2010

ELEFANTE

Sérgio Oiticica

No Recife os místicos que eu conheci não atravessavam os rios caminhando pelas pontes. Iam pelo Recife velho até a beira do rio e esperavam olhando a lama das margens. Dona Santa, então, chegava bem de manso e, num repente, o estrondo do maracatu coroava o rei de congo que, com seu poder, atravessava os que criam através do rio.
Não foram poucos os que morreram no trajeto pois, com sua força, o rei de congo os transportava além, pelos mares do Atlântico, e a África os engolia.
Hoje, no Recife, não há mais místicos e Dona Santa repousa perto do cais.
Os rios continuam correndo e as pontes estão muito cheias de gente.
Mas, às seis da tarde, a sombra de um Elefante escurece a memória dos lúcidos e eu me imagino perdido pela correnteza.

PECADOS IMORTAIS (2)

11 dUTC Abril dUTC 2010

Outros Versos Satânicos

Sérgio Oiticica

Na romança de Satã
de vertente citadina
(onde a alma folgazã
dum ser que a vida ilumina
se arrastou não tão cristã
na Lapa, sagaz, ladina)
sem ter verve mais louçã,
vou contar em ladainha
proezas de fé malsã
da diaba mais rainha.

No bairro das quatro letras,
que até o rei conheceu,
um rei malandro nas tretas
nos anos trinta viveu
tratando ruivas e pretas,
polacas , bichas, plebeus,
muquiranas e secretas
como fossem esparros seus.
Fez fama entre picaretas,
eis como o caso se deu:

No ano de trinta e oito,
já assustando a cidade,
valente, malandro afoito,
com trinta e oito de idade,
pegando homens pro coito
mostrando a sua verdade,
no carnaval muito doido,
feliz, afeito à vaidade,
bancava o diabo loiro
nos blocos bem à vontade.

Falso ao corpo, bom baitola
nas festas fantasiado,
salto alto, brinco, estola,
no Caçador de Veados
o cu pulsando por rola,
no carnaval bem amado,
no Turunas deita e rola,
no República é aclamado,
os bofes lhe dando bola
o apelido lhe é dado.

De compleição mediana,
duro na queda e no couro,
mestre na arte sacana
do golpe do suadouro
mais lhe aumentava a gana,
sem sentir nenhum desdouro,
de correr atrás da grana
do otário branco e louro.
Fosse um mulato de fama
não lhe escapava o crioulo.

Combinado bem co’as putas,
parceiras na arrelia,
disposto a todas as lutas
por sua vida vadia,
como terras devolutas
se apossava c’ousadia
dos dinheiros dos batutas
que arrotavam valentia.
As pernadas na disputa
voavam qual ventania.

Cem mil réis desocupados
no bolso de vagabundo
eram desapropriados
em questão de um segundo.
E o rei daqueles veados
que na Lapa ( aquele mundo
de boêmios desregrados)
parecia um vira-mundo
subjugando os escravos,
impunha sua lei bem fundo.

Lá pras bandas da Marrecas
no cabaré Cu da Mãe,
na Taylor ou no Capela,
na Conde Lages ou não,
e ainda em ceca e meca
ou qualquer outro desvão,
a história é sempre aquela
do filho de Conceição:
seu rastro é só seqüela,
navalhada, bofetão.

Mais valente que os valentes
nunca serviu de lambaio.
Brigou com unhas e dentes
sem nunca sair cambaio.
E embora de Deus temente
bebia c’o sapucaio,
dava surras em tenente
em janeiro, agosto ou maio.
Quem conta isto não mente
nesta esparrela não caio.

Lá de Glória do Goitá
(nas brenhas de Pernambuco)
pra Avenida Mem de Sá
onde, empunhando um trabuco,
não se deixando arrostar
meteu bala num eunuco,
alguns anos foi tirar
e, alavanca sem fulcro,
na Ilha pôs-se a penar:
sofreu mas saiu no lucro.

João Francisco nascido,
dos Santos por sobrenome,
se tivesse a Deus pedido
fama no meio dos homens
não teria conseguido
fama maior: eis que nomes
da História conhecidos,
gente de honra e renome,
povo na glória parido,
por perto dele se somem.

Embora homossexual
casou-se em trinta e quatro
e, não me levem a mal,
isto é verdade , é fato.
Mesmo não sendo o normal
sempre assumiu este ato
e contava com moral:
“filhos criei dois mais quatro!”
O que é prova cabal
que de bondade foi farto.

Foi cozinheiro famoso,
nos temperos era fino,
fazia prato cremoso
no fogão desde menino:
molho ferrugem gostoso,
seu feijão um desatino,
peixes com caldo cheiroso,
seu vatapá era um hino:
glória de todo guloso,
de rezar ouvindo sinos.

Estas histórias sem fim
quanto mais conto se expandem.
Posso dizer, outrossim,
quem souber outras me mande
desse herói de folhetim:
Eros, festejos bacânticos,
dionisíaco festim,
lenda viva, sexo e sangue
que foi descansar, enfim,
morando na Ilha Grande.
Hoje a lenda se espalha,
bem se imagina, e vigora.
A história que serve e calha
é aquela que conto agora:
Madame Satã, navalha,
boemia que fez escola,
dentro da noite que orvalha
com seus amores se embola,
no céu da Lapa retalha
sombras da nossa memória.

Endossando a bronca do Alexei

30 dUTC Março dUTC 2010

AS ABERRAÇÕES DO “DIREITO DE IMAGEM”

O recente episódio do processo intentado contra a Editora Aprazível, em seu livro sobre o fotógrafo José Medeiros, em que representantes legais dos herdeiros de Manuel Bandeira, em verdadeira aberração postulatória, reivindicaram – e ganharam em primeira instância – o direito a retirar de circulação um livro imenso, no meio do qual há uma foto do poeta, em meio a outras pessoas, e ainda receberem indenização, é um marco do ponto a que chegou a aberração do infame conceito de “direito de imagem”, que transforma grandes figuras da nacionalidade, homens de imagem pública e notória, que como homens públicos voluntariamente viveram, em algo como marcas de roupas e refrigerantes.

Antes disso outra aberração, talvez ainda maior, foi intentada contra os proprietários do belo curta metragem “O poeta do Castelo”, realizado por Joaquim Pedro de Andrade e produzido por Fernando Sabino. Sem sequer entrar no mérito de que Manuel Bandeira nem viúva deixou, nem filhos teve, é bom lembrar que Joaquim Pedro era filho de seu maior amigo, Rodrigo Melo Franco de Andrade. Quando o poeta acedeu ao desejo do jovem cineasta de ser retratado em seu curta, ele obviamente doou a sua imagem, a sua participação, ao cineasta. Reivindicar “direito de imagem” sobre esse curta-metragem, mais de quatro décadas depois, é mais ou menos como se algum sobrinho do saudoso Maurício do Valle processasse os herdeiros de Glauber Rocha por sua participação nos quatro filmes do genial cineasta em que ele atuou. Há um princípio jurídico de grande importância, o da razoabilidade, que está sendo atropelado por todas essas aberrações. E mais: um sinal óbvio de civilização são os limites à propriedade, em nome do bem comum, inclusive o bem cultural. Maior exemplo não existe do que o tombamento. Se Ouro Preto não tivesse sido declarada Monumento Nacional nos anos de 1930, todas as suas casas seriam hoje cubos de concreto, com janelas basculantes de vidro blindex! Se há limites de propriedade para os bens físicos, por que não os haveria para bens imateriais, como as obras literárias, às vezes de muito maior importância?

O chamado “direito de imagem” representa a própria morte da cultura. Como, numa foto coletiva, às vezes com dezenas de pessoas, não se expor, ao publicá-la, à ânsia argentária de algum sobrinho-bisneto de um grande homem? Uma jurisprudência sórdida está sendo criada. E o pior, enquanto o direito à obra literária chega a 70 anos após a morte do autor, esse conceito vago de “direito de imagem” – que não significa nada e pode por isso mesmo significar tudo – não tem prazo de validade! O autor destas linhas, por exemplo, é 11º neto do célebre Anhanguera. Juridicamente, quem sabe, poderia processar algum livro didático que reproduzisse um retrato supositício de seu antepassado, morto há mais de três séculos! Como poderão trabalhar dessa maneira os críticos, os iconógrafos, os antologistas, os documentaristas?

E para escárnio maior, os responsáveis por tais processos dizem querer proteger Manuel Bandeira dos “aproveitadores”, que devem ser, provavelmente, os falecidos Joaquim Pedro de Andrade, José Medeiros e Fernando Sabino, ou os excelentes editores do livro sobre José Medeiros. Até onde vai tudo isso? Se para bens físicos pode haver o tombamento ou a desapropriação, nada se pode fazer em relação a imagens públicas de homens públicos? Pode a cultura de algum país civilizado ser entregue à chicana dos rábulas, descumprindo de forma evidente o que seria a vontade dos autores, se vivos fossem? Onde fica a razoabilidade? Onde fica a cultura brasileira em tudo isso? Entregue aos rapaces ou às mediocridades ávidas de exercer poder? Que este texto sirva como um manifesto, a conclamar todos os que trabalham com e pela cultura no Brasil.

Alexei Bueno

30-3-2010

ESTÓRIAS MÍNIMAS

23 dUTC Março dUTC 2010

Pesquei essas pequenas maldades do José Resende Jr. no blog do Bob Fernandes no Terra Magazine. Pretendo publicar mais umas, mas quem quiser ler direto na fonte clique AQUI.

A TRAPEZISTA

Aterrissou nos braços do homem infeliz, que tratou de podar-lhe o voo. Tolo: não sabe que as asas das trapezistas crescem em cativeiro…

MÚSICA URBANA
No meio da rua, tocando violino para ninguém ouvir. Tão bonito que os passarinhos fizeram silêncio – mas também não foram ouvidos.

DUAS MENINAS
As melhores amigas, desde meninas. Mas só bem velhinhas ousaram o primeiro beijo. Ainda assim foram felizes, pelo para-sempre que restava.

Onze poemas da Lapa / Alexei Bueno

25 dUTC Janeiro dUTC 2010

TROTTOIR

Os homens vão e vêm na íris das putas
E nenhum pára.
Nenhum ouve suas vozes dissolutas
Nem as encara.

São inúteis as frases mais argutas
Ou sobre a cara
A tinta, o pó. E a vida, quantas lutas,
Como está cara!

Ao longe os filhos, os filhos das putas
Com ladrões, ou pinguços, ou recrutas,
Na noite avara

Dormem cingindo palhaços birutas,
Bonecas louras relesmente hirsutas
Que a lua aclara.

12-11-2004

NOTURNO

Sobre os seus saltos, sob a lua cheia,
Os travestis desfilam como garças,
Farsa carnal em meio às outras farsas
Que o mundo absurdo no aéreo chão semeia.

São deusas-mães usando liga e meia,
De ancas imensas, madeixas esparsas,
De enormes seios, piscando aos comparsas,
Buscando otários para a escusa teia.

São Vênus neolíticas chamando
Sombras confusas, entre os cães sem casa
E os negros ébrios. Seu barroco bando

Volveu, pulsante, dos tetos das grutas,
E anda na névoa, como numa vasa,
Rotundas popas balouçando enxutas.

28-10-2004

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GREVE DO CÉREBRO / RICARDO RAMOS

24 dUTC Janeiro dUTC 2010

GREVE DO CÉREBRO
Para Heleno de Freitas


Quando Heleno resolveu lutar já não vestia uniforme completo, aquele das listas negras verticais por cima do pano branco obrigatório.
Tinha os mesmos pés presidiários da mesmíssima bola. Agora porém era uma bola de neve, não sintética como antigamente. Uma bola de couro cabeludo, coberta de gomalina. Dali, do último degrau da arquibancada. Heleno apertava nas mãos um universo — sua cabeça. A fábrica? Não tinha mudado. Apenas vestígios na sanidade daquelas pernas que suavam e se trocavam dentro das meias de treino, como se nada houvera acontecido. Somente Heleno, no sol, sonhava sobre o campo de concentração.Na grama, continuavam dessa maneira! torcendo tornozelos, dobrando os joelhos enfaixados, ensopados no quelene do massagista.
…………………………………………………………………………………………………….
Um cachorro malhado, saindo do concreto , fura o túnel do Pasmado, sai do morro e desce para Heleno. Beija-lhe o cérebro, lambe seus olhos.

Ali está ele, Heleno
Jogado, imundo, morto

A bola nas mãos presa
Entre as orelhas a bola
No peito, a baba rolando
No ventre o mapa gerindo
O gol para a placa de nuvens

E o Deus dos dedos olímpicos
Processa o dardo implacável

Ali está Heleno, ilhado
Eu sugado, preso, só
Pingando sangue e bandeiras
Dentro do círculo oficioso

Nos muros raspados do vestiário
Os companheiros soltam pregos
Como se tudo fosse enferrujando
E tudo isso velho bastasse

Com pena e pá do juiz que mata
O coveiro prepara o vegetal
Riscando com a cal virgem
A margem do espetáculo

E ali está ele, dopado
Mortalizado no quadro
Dos profissionais da distância

Suspenso na ponte
Sentado no banco
Fechado no túnel
Expulso do campo

(Enquanto foto mantém-se estático
Enquanto estático o nada se mantém)