Bestiário (15)

17 dUTC Abril dUTC 2010

ELEFANTE

Sérgio Oiticica

No Recife os místicos que eu conheci não atravessavam os rios caminhando pelas pontes. Iam pelo Recife velho até a beira do rio e esperavam olhando a lama das margens. Dona Santa, então, chegava bem de manso e, num repente, o estrondo do maracatu coroava o rei de congo que, com seu poder, atravessava os que criam através do rio.
Não foram poucos os que morreram no trajeto pois, com sua força, o rei de congo os transportava além, pelos mares do Atlântico, e a África os engolia.
Hoje, no Recife, não há mais místicos e Dona Santa repousa perto do cais.
Os rios continuam correndo e as pontes estão muito cheias de gente.
Mas, às seis da tarde, a sombra de um Elefante escurece a memória dos lúcidos e eu me imagino perdido pela correnteza.

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PECADOS IMORTAIS (2)

11 dUTC Abril dUTC 2010

Outros Versos Satânicos

Sérgio Oiticica

Na romança de Satã
de vertente citadina
(onde a alma folgazã
dum ser que a vida ilumina
se arrastou não tão cristã
na Lapa, sagaz, ladina)
sem ter verve mais louçã,
vou contar em ladainha
proezas de fé malsã
da diaba mais rainha.

No bairro das quatro letras,
que até o rei conheceu,
um rei malandro nas tretas
nos anos trinta viveu
tratando ruivas e pretas,
polacas , bichas, plebeus,
muquiranas e secretas
como fossem esparros seus.
Fez fama entre picaretas,
eis como o caso se deu:

No ano de trinta e oito,
já assustando a cidade,
valente, malandro afoito,
com trinta e oito de idade,
pegando homens pro coito
mostrando a sua verdade,
no carnaval muito doido,
feliz, afeito à vaidade,
bancava o diabo loiro
nos blocos bem à vontade.

Falso ao corpo, bom baitola
nas festas fantasiado,
salto alto, brinco, estola,
no Caçador de Veados
o cu pulsando por rola,
no carnaval bem amado,
no Turunas deita e rola,
no República é aclamado,
os bofes lhe dando bola
o apelido lhe é dado.

De compleição mediana,
duro na queda e no couro,
mestre na arte sacana
do golpe do suadouro
mais lhe aumentava a gana,
sem sentir nenhum desdouro,
de correr atrás da grana
do otário branco e louro.
Fosse um mulato de fama
não lhe escapava o crioulo.

Combinado bem co’as putas,
parceiras na arrelia,
disposto a todas as lutas
por sua vida vadia,
como terras devolutas
se apossava c’ousadia
dos dinheiros dos batutas
que arrotavam valentia.
As pernadas na disputa
voavam qual ventania.

Cem mil réis desocupados
no bolso de vagabundo
eram desapropriados
em questão de um segundo.
E o rei daqueles veados
que na Lapa ( aquele mundo
de boêmios desregrados)
parecia um vira-mundo
subjugando os escravos,
impunha sua lei bem fundo.

Lá pras bandas da Marrecas
no cabaré Cu da Mãe,
na Taylor ou no Capela,
na Conde Lages ou não,
e ainda em ceca e meca
ou qualquer outro desvão,
a história é sempre aquela
do filho de Conceição:
seu rastro é só seqüela,
navalhada, bofetão.

Mais valente que os valentes
nunca serviu de lambaio.
Brigou com unhas e dentes
sem nunca sair cambaio.
E embora de Deus temente
bebia c’o sapucaio,
dava surras em tenente
em janeiro, agosto ou maio.
Quem conta isto não mente
nesta esparrela não caio.

Lá de Glória do Goitá
(nas brenhas de Pernambuco)
pra Avenida Mem de Sá
onde, empunhando um trabuco,
não se deixando arrostar
meteu bala num eunuco,
alguns anos foi tirar
e, alavanca sem fulcro,
na Ilha pôs-se a penar:
sofreu mas saiu no lucro.

João Francisco nascido,
dos Santos por sobrenome,
se tivesse a Deus pedido
fama no meio dos homens
não teria conseguido
fama maior: eis que nomes
da História conhecidos,
gente de honra e renome,
povo na glória parido,
por perto dele se somem.

Embora homossexual
casou-se em trinta e quatro
e, não me levem a mal,
isto é verdade , é fato.
Mesmo não sendo o normal
sempre assumiu este ato
e contava com moral:
“filhos criei dois mais quatro!”
O que é prova cabal
que de bondade foi farto.

Foi cozinheiro famoso,
nos temperos era fino,
fazia prato cremoso
no fogão desde menino:
molho ferrugem gostoso,
seu feijão um desatino,
peixes com caldo cheiroso,
seu vatapá era um hino:
glória de todo guloso,
de rezar ouvindo sinos.

Estas histórias sem fim
quanto mais conto se expandem.
Posso dizer, outrossim,
quem souber outras me mande
desse herói de folhetim:
Eros, festejos bacânticos,
dionisíaco festim,
lenda viva, sexo e sangue
que foi descansar, enfim,
morando na Ilha Grande.
Hoje a lenda se espalha,
bem se imagina, e vigora.
A história que serve e calha
é aquela que conto agora:
Madame Satã, navalha,
boemia que fez escola,
dentro da noite que orvalha
com seus amores se embola,
no céu da Lapa retalha
sombras da nossa memória.

O DIÁRIO DAQUELE SENHOR DE OUTRO DIA

4 dUTC Dezembro dUTC 2009

Anotava dois terços das frases que pronunciava durante o dia. À noite só registrava a metade, pois bebia e muita coisa se perdia entre copos.
Nas manhãs de ressaca apenas um terço era passado para o papel, dor de cabeça atrapalhando.
Ao levar as diversas anotações para o livro encapado da mesinha de cabeceira, desprezava muita coisa, numa rigorosa seleção.
Todo fim de mês era o dia sagrado de resumir as anotações em frases sucintas, de efeito direto.
Em São João e no Natal depurava o conjunto, aparava bem aparado, e encadeava o sentido.
Tinha, há cada cinco anos, a noção exata do que havia se passado e, assim, fazia a compactação perfeita daquele período da vida.
No único cinqüentenário de suas anotações fez violento expurgo de palavras inúteis. Ontem, véspera do fim, deixou com Amilcar um envelope lacrado e, na única frase encontrada após sua morte, percebeu-se que a palavra solidão pulsava com crescente insistência.

SÉRGIO OITICICA

CHARME

16 dUTC Novembro dUTC 2009

CHARME

Fumava e fazia um ele às avessas, assim com a mão e com o braço, ao lado do corpo, a brasa pra baixo.
Chamava de charme, aprendera com a avó que, três anos, morou na capital.
Achava muito fino tomar champanhe na flute mas oportunidade nunca tivera: conhecia de nome aquelas bolinhas entrando no nariz, já íntimas de se sentir flutuando.
Ali na zona aquela gente era tão difícil … Não tinha um jenessequá! Só voltava lá porque, enfim, cinqüenta anos nos dão sempre o frescor dos cinqüenta anos.
Mesmo depois dos oitenta.
Fumava.
Chamava de charme.

SÉRGIO OITICICA

POSTO 2, ADJACÊNCIAS

7 dUTC Novembro dUTC 2009

RAMON

Ramón.
Era assim que atendia.
Três anos de Brasil, chegado na nega Cecília, por nada trocava o posto 2, adjacências, aquelas piranhas plenas, o navegar das noites, o tabuleiro nos dias de venda, as manhãs de areia e luz, alegrias no marzão purificante, sal do ser.
Grande papo, não bebia, falava.
Nem fumo, nem cheiro, nem pico, nem bola, nem nada, que não era disso. Ficava, plenos dias, Posto 2, absorto, nas ondas da vida que, por ali dissipadas, embrenhavam-se no sentimento que carregava.
E carregava, da vida por aqui, o sentimento que imaginara da infância.
Foi preso, olhar distante, manhã de areia e luz, nem fumo, nem cheiro, nem pico, nem bola, nem nada, chegado na nega Cecília.
Tão chegado que, grande papo, conversava com ela, faca na mão, marzão de sangue, a nega a sono eterno, o monocórdio monólogo a fluir num portunhol de piranhas, o Posto 2, adjacências, ali.
Navegar das noites.
Vida que segue.

SÉRGIO OITICICA

PROCISSÃO

23 dUTC Outubro dUTC 2009

A massa se movia arrastada fazendo esses no chão, riscando um rastro de eterno movimento, a caminho da região mais seca. Santos, beatos, surrão e cruz, máquina semovente atada à poeira da terra prometida.

Augusto, no meio, serpenteava junto, saco de juta, junta de jegue, farinha e juízo assente.

Assunto certo e renitente martelava a mente daquele Justo, o Augusto crente: se cria na fé que ouvia de boca a ouvido e aí se via, assim, em arrastado atropelo, pra que não largar de vez o corpo naquela terra, que já era a terceira vez que por lá passava o arrasto de gente?

(Mas vai ver que fé é assim mesmo, tem que repetir o enfado pra mostrar que acredita nela.)

E lá, no meio da sexta vez, foi que, por trás do jegue, largou de vez o corpo naquela terra, o coice em cheio, a fé se esvaindo, o sangue fazendo a única poça do derredor, o Augusto, boca lá dentro, se sentindo rodar, alma semovente atada à poeira da terra prometida.

Sérgio Oiticica

procissão