BESTIÁRIO (12)

8 dUTC Março dUTC 2010

FRAGMENTOS (VI)

Mais uma do Fiophélio mandada pelo Tuca Zamagna


Pequenas iguarias pelo chão

(…)
Meu padrinho, que me criou, não gostava que eu brincasse com bichinhos na terra do quintal lá de casa, não: sabia que eu gostava de comê-los, principalmente os besouros e os pequenos caracóis, irresistíveis na sua maciez crocante. Aprendi desde muito cedo, por volta dos 10 meses de idade, quando já sabia engatinhar com desenvoltura, que essas iguarias têm hábitos, tiques e manias como os seres humanos. As joaninhas, por exemplo, se você demorar a mastigá-las, escapam para o céu da boca e nele se aferram com tal empenho que fica impossível removê-las com a língua. Se você, no entanto, ali deixá-las por alguns minutos, a ansiedade acaba por traí-las: cientes da gravidade da situação, começam a circular por toda a sua boca, pisando mais forte com o par de patas traseiro e emitindo estrilos – perceptíveis tão-somente pelo aguçado tato da mucosa humana –, como se a discutir a melhor estratégia para enfrentar o perigo iminente de morte. Já os caracóis, normalmente lerdos no caminhar, tornam-se lépidos dentro da boca humana, deslizando em alta velocidade pelas pirambeiras da língua, a tirar partido da mistura de saliva com sua própria baba de molusco: e assim esquiam tranqüilos e sorridentes, alheios à visão dos dentes que irão triturá-los..

A par dessa minha preferência por coleópteros e pequenos moluscos com casca, nunca rejeitei outros serezinhos que a terra me oferecia, nem mesmo as lacraias e escorpiões. Sabendo agarrá-los, de modo a evitar e depois extrair o perigoso ferrão, são frutos muito prazerosos: o gosto acre e rançoso logo é suplantado pelo agradável entorpecimento da língua que decorre do vazamento do veneno, inofensivo sem a ação da ferroada. No entanto, há que se conter a gula, posto que dois ou mais indivíduos dessas espécies peçonhentas, se embocados ao mesmo tempo, são capazes de planejar e executar em segundos uma vingança terrível: secretam uma enzima que transforma seu algoz em vítima de uma diarréia das mais dolorosas. Tal substância, a Ciência ainda não foi capaz de detectá-la, uma vez que é produzida apenas nesta exata ocasião: quando eles estão à beira da morte no cadafalso bucal de um ser humano.
(…)

Fiophélio Nonato
(em Autobiografia de um que nunca nasceu)

Ilustração: página de croquis dos Diários de Jean-Christof, cedida pela Fundação Mano Cruz

Diários de Jean Christof / final.

16 dUTC Janeiro dUTC 2010

Encerro com este post a série sobre os Diários de Jean-Christof Zamenhof.
À margem dos conflitos entre as partes, publico mais uns desenhos do controvertido polaco com a anuência de todos já que a divulgação da obra de Jean-Christof é de interesse comum aos envolvidos.

As discrepâncias serão resolvidas no foro adequado.

Obs.: As iniciais no canto esquerdo inferior das imagens referem-se a seus respectivos remetentes :
FMC – Fundação Mano Cruz
MGML – Mário Gallo Modesto Leal
F&B – Casa Editorial Flávio Braga


Tradução dos textos manuscritos:

F&B . 2 ) Um jaguar ferido ataca um akamok. Posteriormente o animal foi perseguido e morto por outros guerreiros. A carcaça foi levada para a aldeia e queimada junto com o guerreiro morto.
F&B. 3) Misto de réptil e quelônio este animal é extremamente ágil e ótimo pescador. Os akamoks enfiam-lhe um galho de árvore entre as mandíbulas impedindo-lhe as mordidas Há que se tomar cuidado com a cauda.
MGML . 3) Serpente (Lachesis Muta) capturada, regurgita um peixe recém ingerido.
FMC 1, 2 e 3 são provenientes dos “Cadernos” (*). O terceiro é um estudo para L’évasion de Salome gravura posteriormente realizada a talho-doce quando de seu regresso à Europa.

(*) Veja o post ‘Ecos do diário 2.

Ecos do diário (2)

12 dUTC Janeiro dUTC 2010

Citei a Fundação Mano Cruz na resposta a 2 comentários do post anterior. Seu curador, Gregório Raggio solicitou-me espaço para detalhar melhor seu posicionamento nesse mar de controvérsias em que vem se transformando a divulgação dos diários.

(Ai, mainha, se eu soubesse eu não vinha …).

Com ele a palavra:
“Gostaria de esclarecer que:
1 – Os dois cadernos presenteados por Jean-Christof a Emílio Goeldi nunca fizeram parte do acervo do Museu. São de minha propriedade. Adquiri-os num leilão da Sotheby em 2002.
2 – Foram feitos ao longo do período da expedição mas não eram parte integrante dos diários. Seu conteúdo é claramente dissociado do caráter de registro científico como atestam as imagens que lhe envio em anexo. (Publicá-las ou não, fica a seu critério) Os raros textos manuscritos são citações de versos de William Blake, Dante e Milton.
3 – A parceria (já desfeita) da Fundação Mano Cruz com a F&B Casa Editorial limitava-se ao patrocínio financeiro via Lei Rouanet para a publicação da tese do Professor Mário Gallo Modesto Leal. Não tínhamos nenhuma ingerência de cunho editorial.”

Cordialmente, Gregório Raggio.

(Amanhã postarei as imagens)

Ecos do diário de Jean-Christof

8 dUTC Janeiro dUTC 2010

O texto abaixo foi enviado para a caixa de comentários pelo professor Mário Gallo Modesto Leal, contestando o teor das duas postagens anteriores sobre os diários de Jean-Christof.
Achei mais adequado publicá-lo aqui, juntamente com a minha resposta.

Caro Hélio Jesuíno,

Não me cabe criticar a sua decisão de publicar, em seu categorizado sítio virtual, as reproduções de algumas páginas do diário de viagem de Jean-Christof Zamenhof. Trata-se, de fato, de um conjunto de imagens e descrições inusitadas e intrigantes. Devo, entretanto, informá-lo do que se segue:

1 – Quando tomei o referido documento como objeto da minha tese de doutorado, defendida e aprovada em 2005, pela USP, parti do pressuposto, firmado em pesquisas históricas preliminares, de que tinha em mãos o que me interessava: o diário de uma expedição que de fato acontecera mas que, como documento científico, tinha praticamente um único valor, qual seja o de registrar em palavras e imagens um longo e significativo discurso psicopatológico. Tanto que o título da minha tese é Expedição Zamenhof – A concretude onírica de um aventureiro esquizofrênico.

2 – E aí começam os problemas. O subtítulo da tese foi substituído, pela F&B CASA EDITORIAL, por
A descoberta de um universo fantástico no Alto Oiapoque, como consta dos originais já preparados para impressão que me foram enviados recentemente pelo sr. Flávio Braga, proprietário e publisher da referida editora.

3 – As adulterações não param por aí. As quatro páginas que o senhor publicou em seu blog foram incluídas no primeiro dos quatro capítulos da minha tese, e não sofreram qualquer intervenção. No entanto, o texto que analisa essas e outras 12 páginas do diário nesse capítulo foi profundamente modificado. Um trecho de cerca de 130 linhas em que eu comparava a narrativa ilustrada de Zamenhof sobre os animais (hanakitangs) com outra, produzida por ele mesmo por volta de 1878 (portanto 13 anos antes do início de sua viagem pelo Alto Oiapoque, que começou em setembro de 1891 e terminou em abril de 1894) foi reduzido a apenas 26 linhas! Informações capitais para a compreensão da insanidade crescente e incontrolável do grande zoólogo e botânico, simplesmente desapareceram! Essa outra narrativa, Jean-Christof a escreveu aos 17 anos (!) e a encaminhou a Sigmund Freud, amigo dos Zamenhof, então um negligente estudante de medicina, mais interessado em pesquisas científicas divergentes das exigências curriculares. Pois o futuro pai da psicanálise ficou absolutamente encantado com a vivacidade do raciocínio e com o grau de conhecimento do rapazola.

Mais tarde, em 1888, Freud alerta a família de Jean-Christof para sua deterioração psíquica eclodida um ano antes em conseqüência do rompimento de um tórrido romance com a brilhante e sedutora Lou Salomé, então casada com o professor Carl Andreas.
Enfim, só fofocas, fatos banais, sem qualquer importância editorial, não é, sr. Flávio Braga?

4 – Por fim, sr. Jesuíno, eu não poderia deixar de comentar a mais grave adulteração cometida pela F&B Casa Editorial. A mais grave porque, mais do que a mim, atinge uma pessoa que, muito gentilmente, a convite do próprio sr. Flávio Braga, produziu um criterioso e elegante prefácio para a edição da minha tese: o embaixador Jorge de d’Escragnolle Taunay. Pois o texto do nobre diplomata foi reduzido em mais de 40 por cento! E pior: sofreu também vários enxertos, como o parágrafo que abaixo reproduzo:

No dizer abalizado de Zamenhof, a monstruosa serpente aquática Trapinecdes mergulhava a cabeça apenas via aparecer à superfície das águas alguma refeição em perspectiva, homens ou animais, pois tinha o monstro uma capacidade formidável de deglutição, sendo capaz de devorar, em seus mais frugais desjejuns, meia-dúzia de búfalos ou um pelotão inteiro das recém-constituídas tropas republicanas, sem regurgitar sequer os chifres dos bovídeos ou as botinas da soldadada. Escondida a cabeça, punha o bicharoco fora da tona dez a doze pés de cauda, que zurzia horizontalmente, varrendo a superfície das águas e a margem dos alagadiços com tanta violência que punha ao chão dezenas de árvores, algumas, como mungubas e mangues-açu, cujo tronco atingia 2,5 metros de diâmetro.”

Não há uma única palavra escrita por Jorge d’Escragnolle Taunay neste parágrafo. Os trechos que destaquei em negrito são da lavra da própria editora, e os demais foram – pasme, sr. Jesuíno! – extraídos de um livro que conheço bem, de autoria de Afonso d’Escragnolle Taunay, tio-avô do embaixador!!!

Não preciso dizer mais nada, certo? Fico por aqui então. E o sr. Flávio Braga que aguarde as medidas cabíveis contra a sua atuação profissional (?) tresloucada e pusilânime.

Cordialmente,

Mário Gallo Modesto Leal

* * * * * * * *

Não tenho nada a ver com esse imbroglio. Postei o release tal e qual me foi enviado pelo Sr. Flávio Braga , diretor da F&B Casa Editorial que solicitou-me o espaço do blog para a divulgação do lançamento dos diários de Jean-Christof, segundo ele, programado para março de 2010.
Mantenho já há algum tempo vínculos profissionais e contratuais com o Sr Flávio Braga e, no que me diz respeito, atesto sua idoneidade. Este espaço está aberto para sua defesa.

Hélio Jesuíno

Acabo de receber um e-mail do Sr Flávio Braga declinando de seu direito de defesa aqui no blog. Acrescentou que só se pronunciará através de seus advogados.

Em 8 / 01

Tradução dos textos manuscritos:

(página 1) – Na aldeia akamok que me acolheu surpreendeu-me a convivência dos nativos com os hanakitangs. De índole dócil e extremamente inteligentes adaptavam-se com facilidade aos novos hábitos e mantinham um relacionamento bastante cordial.
Alguns chegavam, inclusive, a ajudar os nativos em algumas tarefas domésticas.
Gostam de brincar com as crianças da tribo com as quais são bastantes cuidadosos.

(A lista envolvida por um círculo está escrita em polonês e, ao que parece, refere-se a providências que deveriam ser tomadas por Jean-Christof. Não obtivemos a tradução)

(página 2) – Há naquela região uma espécie de cipó (psycotria viridis) do qual os akamoks extraem uma substância alucinógena com a qual preparam uma bebida que ingerem em algumas cerimônias propiciatórias. Assisti a uma delas:
No centro da aldeia foi fincada uma estaca com travessões nos quais penduraram alguns animais . As mulheres da tribo ingeriram a beberagem e após uma dança frenética em torno da estaca entraram em transe e caíram no chão.
Ainda grogues foram levadas pelos homens para a grande oca central (inclusive duas fêmeas hanakitang que, para minha surpresa, participaram da cerimônia) onde permaneceram por bastante tempo.
Não me foi permitida a entrada mas pelos sons emitidos acredito que copulavam.

As duas páginas aqui reproduzidas fazem parte do diário de viagem de Jean-Christof Zamenhof à região do Alto Oiapoque em finais do sec. XIX.
Entregues pela família do naturalista polonês à guarda do Smithsonian Institute, essas anotações constituem preciosíssima fonte de informações. Botânico e zoólogo de sólida formação, Jean-Christof registrou em seus diários surpreendentes revelações sobre a fauna e a flora daquela região, com minucioso detalhamento de espécies já extintas.
As ilustrações são também de sua autoria. Yves Jarrou, o aquarelista contratado para a expedição abandonou a equipe em São Luís.
Objeto de pesquisa do antropólogo e historiador Mário Gallo Modesto Leal para sua tese de doutorado na USP em 2005, o diário ganha agora uma caprichada edição da F&B CASA EDITORIAL sob o patrocínio da Fundação Mano Cruz.
Jean-Christophe, sobrinho de Ludwick Ljzer Zamenhof, o criador do esperanto, redigia no idioma criado pelo seu tio. O filólogo e tradutor Carmo de Lucchesi que assessorou Gallo nas pesquisas é também o responsável pela tradução desta publicação enriquecida ainda com o esclarecedor prefácio do Embaixador Jorge d’Escragnolle Taunay.

Tradução dos textos manuscritos:

(página 1) As fêmeas entram no cio a cada lua cheia, período no qual ficam praticamente cegas. Vagueiam errantes até serem encontradas pelo macho. Observando o ato sexual surpreendi-me com a variação e a inventividade das posições praticadas, das quais ambos pareciam extrair grande prazer.
Após uma série de intensos orgasmos as fêmeas recuperam a visão mas, assim como os machos, caem exaustas num estado de profunda letargia que pode durar dias. Neste momento tornam-se presa fácil tanto para seus predadores naturais (as jibóias e os jaguares) como para os nativos da região, os Akamoks.
As fêmeas parem andando seguidas pelo macho que come o primogênito. O caçula da ninhada é a primeira refeição materna depois do parto.
Registre-se que os sobreviventes são criados com zelo e afeto extremados.

(página 2) Em liberdade, raramente os hanakitangs andam sobre os membros traseiros. A natural dificuldade para manterem a posição ereta não lhes permite mais que 2 ou 3 metros de percurso. Não obstante, observei na aldeia dos Akamoks uma fêmea que, capturada há bastante tempo, caminhava com relativa desenvoltura por distâncias mais longas, faculdade adquirida no convívio com humanos.
São onívoros mas, péssimos caçadores, alimentam-se praticamente só de frutas e larvas. Adoram caracóis.
Em cativeiro, quando lhes é servida, apreciam todos os tipos de carne mas creio ter percebido uma singular predileção pelas serpentes.