Confluências / Gravuras digitais

26 dUTC Abril dUTC 2010

As fotos que originaram essas gravuras são do Cesar Cardoso e podem ser vistas no seu blog aqui e aqui.
São o início de uma série a quatro mãos que preparávamos para um exposição que acabou não se realizando. Revendo-as agora me deu vontade de dar continuidade ao trabalho que, acredito, tem espaço pra outros desdobramentos e interferências.

E aí, parceiro, vamos nessa?


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Esta série de gravuras digitais integra a “Suíte iconoclasta” (veja AQUI) e leva o mesmo título das colagens da 1ª parte: Como era gostoso o meu Larousse.
Fiz as intervenções diretamente sobre as páginas arrancadas de um velho Larousse. Digitalizei-as e o resultado foi impresso digitalmente sobre papel de algodão, formato 30 x 40 cm, tiragem de 20 exemplares, numerados e assinados.

GRAVURAS DIGITAIS

3 dUTC Fevereiro dUTC 2010

Algumas das gravuras aqui presentes fazem parte de outras séries já postadas: as de número 11, 12 e 13 estão na 3ª parte da Suíte iconoclasta; 14 e 15 nos Andarilhos. As outras são inéditas no blog.
Iniciadas em colagem e técnica mista, foram finalizadas com os recursos da computação gráfica. O resultado final foi impresso em papel Hanemuller, tiragem de 20 exemplares, formato 30 x 40, numerados e assinados. R$ 500,00 cada.
Aguardo os pedidos …

TIGRE

10 dUTC Novembro dUTC 2009

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O tigre acima, desenhado por Jorge Luis Borges aos 6 anos de idade, foi o ponto de partida para esta série. As dez imagens daí resultantes foram impressas digitalmente em papel hanemuller , formato 30 x 40 cm.

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TRAÇOS E TIGRES

O primeiro texto escrito que se conhece de Jorge Luis Borges é uma enumeração caótica,composta de quatro palavras: “Tiger, Lion, Papa, Leopard ”. Nela encontramos os primeiros sinais de uma obsessão que perdurará, a das feras, mas especialmente a do tigre, assim como constatamos o perfeito bilingüismo do menino, criado num ambiente onde se falavam indiferentemente o espanhol e o inglês.

(…) Assim testemunhou, sobre esse período, Leonor Acevedo, sua mãe, que lhe acompanhou boa parte d longa vida: “Ele tinha a paixão pelos animais, sobretudo as feras. Quando íamos ao Jardim Zoológico, era difícil fazê-lo sair. (…)Quando ele voltava, ele desenhava animais, deitado no chão, e começava sempre pelas patas. Desenhava sobretudo tigres, que eram os seus animais favoritos. Depois dos tigres e outras feras, ele passou para os animais pré-históricos, sobre os quais ele leu, durante dois anos, tudo o que era possível ler.

(…)Foi a partir desses fatos, que inauguraram uma das mais belas aventuras literárias e imaginativas do século XX, e mais especificamente a partir de um desses desenhos infantis aqui mencionados, que Hélio Jesuíno — dos maiores artistas gráficos do Brasil atual — compôs a presente série, igualmente mitológica e fantástica, uma mitologia sobre outra mitologia, derivação labiríntica tão ao gosto do fabuloso escritor argentino.

“The Queen was in the parlour”, é a frase que lemos no livro infantil no qual sobre uma voluta rebuscada, o menino Borges desenhou o seu tigre canhestro, algo paquidérmico, destituído concretamente, por insuficiência da mão infantil, da sinuosa elegância dos felinos. Tal desenho foi o motivo detonador da admirável série de composições que encontramos aqui. Há reis, rainhas, castelos, feras, fragmentos de escritas, todo um mundo mitológico sob o qual subjaz, sem dúvida, uma história que furtivamente nos escapa. A mestria do traço e do cromatismo do artista acabou por extrair, do devaneio primevo do Borges criança, um outro devaneio, um outro mundo inteiro e cerrado, que se sustenta, se basta e nos desafia, que nos ameaça e de nós se esquiva com a coleante capacidade de esquivança das feras. É sinal das grandes obras de arte esse poder inesgotável de gerar, para além da intrínseca fruição estética, o germe de outras obras, mesmo em outras artes. Se o desenho pueril de Jorge Luis Borges não é em si mesmo uma obra de arte, podemos sem dúvida dizer que passa a sê-lo quando chegamos a saber, conhecendo a sua obra, quem foi o seu autor. A obra futura retorna, dessa maneira, e sagra, miraculosamente, o ingênuo rabisco do futuro criador. E tudo isso, esse encontro eletivo entre o sonho do longínquo menino argentino e a arte violentamente presente de Hélio Jesuíno, nos envolve numa mágica plenitude de continuidade humana.

Alexei Bueno