Fotomaquias (5) / Um reino distante

23 dUTC Abril dUTC 2010


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Cultuando Garcia Lorca(5)

16 dUTC Abril dUTC 2010

ROMANCE DE DOM BOYSO

Caminha Dom Boyso
manhãzinha fria
a terra de muros
a buscar amiga.
Achou-a lavando
numa noite fria.
— Que fazes aí, moura,
filha de judia?
deixa meu cavalo
beber água fria.
— Rebente o cavalo
e quem o trazia,
que moura não sou, filha de judia.
Sou cristã
que aqui estou cativa.
—Se fosses cristã
eu te levaria
e em panos de seda
te envolveria;
porém se és moura
eu te deixaria.

Montou-a ao cavalo
a ver que dizia;
mas nas sete léguas
ela silencia.
Ao passar num campo
de verdes olivas
por aqueles prados
que prantos vertia!
Ai, prados! Ai, prados!
Ai, da minha vida.
Quando o rei meu pai
plantou esta oliva,
plantou-a ele aqui
mas eu a mantinha,
enquanto a rainha
a seda torcia,
meu irmão Dom Boyso
os touros corria
—E como te chamas?
—Eu sou Rosalinda,
e assim me chamaram
porque ao nascer
uma linda rosa
em meu peito eu tinha.
—Você, pelas senhas,
minha irmã seria.
Abra minha mãe
portas de alegria,
se não trouxe nora,
trouxe sua filha.

PECADOS IMORTAIS (4)

12 dUTC Abril dUTC 2010


O Bordel das Normalistas

Por Aldir Blanc

Não há mais razão para polêmicas. O Bordel das Normalistas existe. Sempre existiu em nossas mais loucas fantasias e agora foi retirado das sombras da psique coletiva pela expressiva arte de Hélio Jesuíno.
Sem papas no traço, sem disfarces hipócritas de bom-tom, Hélio vai direto à veia jugular da nossa tara e bota as meninas no colo, entre sorvetes, cavalinhos, livros de história…
O Bordel é nossa mente e lá as normalistas tornam a inevitável decadência mais divertida, uma espécie de limbo para além do remorso e da culpa, redimidos os pecados delas, filhos ingênuos dos nossos, pelo ato criador do artista.

Olho as gravuras do Hélio, penso nas moças do meu tempo e cantarolo o samba antigo:

São bonitas, são bonitas demais…

TRABALHOS MANUAIS (HOMEWORK)

Sérgio Oiticica
E ele era um só deleite, regalado, maginoso, nem no mundo, prazenteiro de ficar.

E lhe cabia ficar.

Cabia cada um daqueles frêmitos, convulsos quase, que era assim que ele ficava.

Mas não que não. Nem não, jamais, que era pecado aquilo.Em tudo.

Mas ele via e via que via.

E ficava imaginando todas como se fossem bonequinhas cavilosas, todas de todo lindas, úmidas, mimosas, dispostas diante de si, se desfazendo no imaculado azul e branco dos uniformes de saiote, ele a cavaleiro, na cátedra, elas au rez-de-chaussé, à frente, derreadas, com as vergonhazinhas expostas à sanha febril que o corroía, num bê-a-bá que lhe refizesse a luxúria atávica, que lhe lhe fizesse o humor varonil como único representante do sêmen da vida, como alguém capaz de derrotar a mágoa de ser e não ter.

E a música dos risinhos bichanava-lhe aos ouvidos. E cambava-se-lhe a moral. E já sentia o roçado das carnes tenras.

E, aos poucos, vara na mão, brandia contra aquela classe todo o seu ódio impotente de mestre fobó daquele lupanar ilusório.

Que enfeitava de prazer, vara na mão, seus ociosos vagares solitários.

E ficava num só deleite, regalado, maginoso, nem no mundo, prazenteiro de ficar.

Gozo só.

Ah!


A PROVA

Armando F. Rodrigues

E o sol bem acima do horizonte no banco de nuvens oculto luziu de açafrão a fímbria nebulosa…

No fim da manhã começavam a voltar os uniformes, e a cercavam por todos os lados, num outro sentido. Estranho, isso a tranqüilizou. Choveu muito um dia antes, uma chuva forte e certa, curta, respirava agora os fétidos humores da cidade mal transada, transida, mal enterrada no atoleiro onde outrora fora fundada. Afundada. De onde viessem talvez atlanticamente, atávicas insepultas heranças, aquelas incomuns crianças.Fetos, feijões mal cozidos, branco, preto, mulatinho, roxinho, manteiga, carijó, vermelhinho, de corda, fradinho. Ela uma delas, até quando. Acontecesse. Mas diferente, como se fosse todo mundo. Todo o mundo fosse, ela não. Subindo a ladeira veio o baile da véspera. Do vespeiro. Da áspera ladeira lodosa à sua mão. Da vespa ardente e direita ferroando o seu sexo. Pela primeira vez. Primeira vespa. Único rapaz capaz, depois da festa, a ferroar mais uma normalista. Mais uma pra lista. Depois. A copa da jaqueira, duas mangueiras assimétricas no porte e no chão, figueira velha amiga, dos tempos de Isadora Duncan, ainda todo dia lá. Cigarra voando baixo, cortando em sua serraria tocos de som. As caras mudaram, ou era mera impressão? Chegando perto, as pessoas não a ignoravam como na esquina antes, n ao como lá embaixo, sentia as fisgas e visgos dos olhos que sabiam porque estava ali, os augustos guardiães das alturas, dos anjos e dos demônios seguiam seus passos desde sempre.

Pá! Um vira-latas saiu de algum portão correndo e latindo para ela, os dentes histéricos. Mas ninguém na via, só um menino de uns onze anos sentado na calçada, e foi só o tempo de se ouvir um silvo longo e cortante que terminou quando deu o cão um salto vivo no ar, um ganido se esvaiu num grunhido gorgolejante, e caiu morto com sua morta língua como o Latim que não se ensina mais na escola. Só faltavam também poucos degraus até chegar. A escola. Tinha que reconhecer que a vida é uma estranha, uma normalista recém-descabaçada — até isso, normalista não é virgem, é cabaço —, noitilúcida. E num bordel da Lapa. As turmas do Colégio Militar e do Pedro II, todos tocam bronha coletiva no banheiro masculino pensando na futura virgem que lhes caberá — além do concurso de quem mais rápido —, esposa, esporra, amém. Nem mesmo sei o nome do sujeito que me levou ontem pra Barra, depois da festa da Mariinha. Nem me importa, doeu. Do Eu mais fundo. Como dói um corte de navalha na boca. Nos lábios, bem no canto, perto da comissura dos lábios. Dói nada. Dói menos sendo navalha de aço de lei, bem afiada, bem manejada. Francês e História. Fudi-me, o porteiro do colégio percebeu que não estou muito bem, só não quero encontrar a puta da professora, bandida, , rastaqüera, virago, vai dar aula mal no caralho. É engraçado, aos poucos me relaxo.. Essa escola velha, essas porra da minha sala que é mais um pombal, lá no alto, quatro lances de escada, cheia de morcego, tenho de relaxar. Sala cheia — nem tanto … — de babacas, ninguém me conhece, eu não conheço ninguém, ninguém me respeita. Eu respeito. Eu me respeito. Bem, depende de que. De quem. De quem foi Mariz e Barros, ou formavam uma dupla?Vamos à prova. Eu ainda de fogo.

Nada daquilo. Português e Matemática.
Ai, e Inglês.

5.1 Objeto direto preposicionado:
arma oblonga e abjeta, de antes apontada e tensa, pronta a lançar a flecha eleata.
3.1 Escreva a fórmula de bhaskara:

2.4”… the huntress in broken plasters keeps watch no longer...”. no reboco partido a caçadora já não sustenta o olhar.

10 de novembro de 1957. Há mais de 40 anos ela escreveu no almaço aquela fórmula talvez pensando no Bósforo, dizem hoje alguns que foi mesmo adepta de Mme Blavatsky e Annie Bésant, e daí ter lido o Vedanta, o Mahabharata, e o medo pânico de barata, mas o fato é que, antes do fim da prova do Instituto, pulou janela afora.
E seguiu assim as telhas velhas do bairro que se estreitam, se atravancam umas se apóiam sobre as outras sem nem se perguntarem como ela seguiu saltitante tal um pardal seguindo as marcas fundas das unhas céleres de Satã sobre o inesperado mal cozido barro das velhas telhas virgens de casa em casa nas alturas nas vertigens das torres onde seus pés volúveis voavam volteando ao vento de um único e só malandrão matreiro, ela corria sobre as telhas sem fim e ainda assim ela corre e ela anda, a Lua, toda noite perdida mas mês que mês achada nua, branca e cheia de manchas, claramente roxas máculas, um diz-que feitas a tapa.

Pelo Diabo, na Lapa.

PECADOS IMORTAIS (3)

12 dUTC Abril dUTC 2010


A NOVA ORDEM

PECADOS IMORTAIS (2)

11 dUTC Abril dUTC 2010

Outros Versos Satânicos

Sérgio Oiticica

Na romança de Satã
de vertente citadina
(onde a alma folgazã
dum ser que a vida ilumina
se arrastou não tão cristã
na Lapa, sagaz, ladina)
sem ter verve mais louçã,
vou contar em ladainha
proezas de fé malsã
da diaba mais rainha.

No bairro das quatro letras,
que até o rei conheceu,
um rei malandro nas tretas
nos anos trinta viveu
tratando ruivas e pretas,
polacas , bichas, plebeus,
muquiranas e secretas
como fossem esparros seus.
Fez fama entre picaretas,
eis como o caso se deu:

No ano de trinta e oito,
já assustando a cidade,
valente, malandro afoito,
com trinta e oito de idade,
pegando homens pro coito
mostrando a sua verdade,
no carnaval muito doido,
feliz, afeito à vaidade,
bancava o diabo loiro
nos blocos bem à vontade.

Falso ao corpo, bom baitola
nas festas fantasiado,
salto alto, brinco, estola,
no Caçador de Veados
o cu pulsando por rola,
no carnaval bem amado,
no Turunas deita e rola,
no República é aclamado,
os bofes lhe dando bola
o apelido lhe é dado.

De compleição mediana,
duro na queda e no couro,
mestre na arte sacana
do golpe do suadouro
mais lhe aumentava a gana,
sem sentir nenhum desdouro,
de correr atrás da grana
do otário branco e louro.
Fosse um mulato de fama
não lhe escapava o crioulo.

Combinado bem co’as putas,
parceiras na arrelia,
disposto a todas as lutas
por sua vida vadia,
como terras devolutas
se apossava c’ousadia
dos dinheiros dos batutas
que arrotavam valentia.
As pernadas na disputa
voavam qual ventania.

Cem mil réis desocupados
no bolso de vagabundo
eram desapropriados
em questão de um segundo.
E o rei daqueles veados
que na Lapa ( aquele mundo
de boêmios desregrados)
parecia um vira-mundo
subjugando os escravos,
impunha sua lei bem fundo.

Lá pras bandas da Marrecas
no cabaré Cu da Mãe,
na Taylor ou no Capela,
na Conde Lages ou não,
e ainda em ceca e meca
ou qualquer outro desvão,
a história é sempre aquela
do filho de Conceição:
seu rastro é só seqüela,
navalhada, bofetão.

Mais valente que os valentes
nunca serviu de lambaio.
Brigou com unhas e dentes
sem nunca sair cambaio.
E embora de Deus temente
bebia c’o sapucaio,
dava surras em tenente
em janeiro, agosto ou maio.
Quem conta isto não mente
nesta esparrela não caio.

Lá de Glória do Goitá
(nas brenhas de Pernambuco)
pra Avenida Mem de Sá
onde, empunhando um trabuco,
não se deixando arrostar
meteu bala num eunuco,
alguns anos foi tirar
e, alavanca sem fulcro,
na Ilha pôs-se a penar:
sofreu mas saiu no lucro.

João Francisco nascido,
dos Santos por sobrenome,
se tivesse a Deus pedido
fama no meio dos homens
não teria conseguido
fama maior: eis que nomes
da História conhecidos,
gente de honra e renome,
povo na glória parido,
por perto dele se somem.

Embora homossexual
casou-se em trinta e quatro
e, não me levem a mal,
isto é verdade , é fato.
Mesmo não sendo o normal
sempre assumiu este ato
e contava com moral:
“filhos criei dois mais quatro!”
O que é prova cabal
que de bondade foi farto.

Foi cozinheiro famoso,
nos temperos era fino,
fazia prato cremoso
no fogão desde menino:
molho ferrugem gostoso,
seu feijão um desatino,
peixes com caldo cheiroso,
seu vatapá era um hino:
glória de todo guloso,
de rezar ouvindo sinos.

Estas histórias sem fim
quanto mais conto se expandem.
Posso dizer, outrossim,
quem souber outras me mande
desse herói de folhetim:
Eros, festejos bacânticos,
dionisíaco festim,
lenda viva, sexo e sangue
que foi descansar, enfim,
morando na Ilha Grande.
Hoje a lenda se espalha,
bem se imagina, e vigora.
A história que serve e calha
é aquela que conto agora:
Madame Satã, navalha,
boemia que fez escola,
dentro da noite que orvalha
com seus amores se embola,
no céu da Lapa retalha
sombras da nossa memória.

PECADOS IMORTAIS (1)

10 dUTC Abril dUTC 2010

Os textos e desenhos que se seguem foram extraídos de um livro que publiquei há tempos atrás: PECADOS IMORTAIS. Colaboraram com textos, Armando Rodrigues, Sérgio Oiticica, Patati e Flávio Braga. Lobo, o editor, é autor do design gráfico.

Trato ali de alguns aspectos da cultura carioca, contrapontos obscuros de suas decantadas paisagens ensolaradas. Madame Satã e o bordel das normalistas são dois nichos desta outra cidade, oculta em nuvens de sombra, resguardada de olhares virtuosos, refratários a seus vícios e dissipações.
Quando escolhi o assunto para tema de uma série de desenhos minha idéia era abordá-lo através da névoa que o envolve e protege, sugerindo mais que mostrando as iniqüidades dessa gente. À minha revelia porém, os pecados impuseram-se, pediram luz e, conspícuos, mostram-se em toda sua plenitude.

Fui fundo.

Aqui no blog dei uma maneirada principalmente na parte das normalistas. Com a impunidade dos padres, (que tempos, meu Deus, antigamente eram só os comunistas que comiam criancinhas) as autoridades, sabe-se lá, poderiam querer pegar alguém pra cristo e achei melhor por minhas brancas barbas de molho…

Abro os trabalhos com o prefácio do Múcio Valentim seqüenciado pelo material de Mme Satã. As normalistas fecham o cortejo.


O ARCO DO TRIUNFO DOS TELES

Múcio VAlentim

Per me si va nella cittá dolente … é o Rio de Janeiro, claro, ou chuvoso, suas modorras e vielas, morros e baixadas, espertos e gatunos — uns mais , outros nem tanto — correndo atrás de suas eternas Dolores, cá ninguém é solidário só no câncer — quanto mais que o carteado e as damas ocupam dia e noite, sem baixas de guerra, a Praça d’Armas da Cruz Vermelha.
Per me si va tra la perduta gente … são os desvãos das ex-capital sem Capitólio e sem Monroe, que tresandam a pecados numa cidade que vive deles por ignorá-los, tantos foram menos heréticos do que, por exemplo, o aluvião lodoso do Castelo jesuítico e fundador derramando-se pelas veias passivas da Santa Luzia até o útero do Atlântico. Daí serem esses Pecados, no Além da impunidade, Imortais.

Agora é tarde, leitor que, incauto como eu, despido de telepatias ou tele-visões, chegou a essas páginas onde se apalpa e se esconde o delírio, o desvario, o mal-de-horror que impregna tais seres — Silvas, Mouras, Oliveiras, Teles — em abjeção santificados, habitantes do obscuro porão coletivo desta urbe-orbe bela e promíscua, sagrada porque impudica, obscena como as chagas e as setas que recobrem piamente a nudez de São Sebastião. Se esconde, eu disse? Mentira, é tarde, eu disse, fui também corrompido.

Tudo aqui é feito e dito às claras, ou às escâncaras, como diria em seu devido tempo não aquele Machado, mas o outro, magarefe que deu nome ao largo.. E logo, um aviso: Se você quer sexo, pornografia, violência, aqui não vai encontrar. Riso, morte, terror, este não é o lugar, mas aí mesmo, ao seu lado, na sua vidinha do dia-a-dia, do noite-a-noite, aí mesmo, onde se esconde isso tudo. Cruzando as arcadas que aqui principiam, no mínimo você vai encontrar as artes, manhas, outras artes, arquétipos, arcanos e caminhos para propiciar que a Arte brote, num lampejo ou homeopática, em quem estiver por aí, disponível. E desperto. E impuro. A Arte não é para os puros.

Desista de toda esperança ao prosseguir.
Eu (também) avisei.

O mito tem o poder de transfigurar os fatos, libertando-os da camisa-de-força das aparências que, muitas vezes, esconde o essencial.
Nestes desenhos optei por abrir mão de uma mera semelhança fisionômica em favor de uma imagem mais próxima de arquétipos que, imortalizando o homem, revelasse o mito em que Mme. Satã veio se tornar.

Sua picardia e coragem fizeram dele um personagem emblemático da resistência aos poderosos e das transgressões à lei e à ordem criadas por eles para preservar seus privilégios.

Preto, pobre e veado, arrancou no tapa e no tiro o respeito que negavam aos homens de sua raça e condição.

Consciente do próprio valor e da falsidade das regras ditadas por uma sociedade que tinha a ele e a seus pares como inimigos, encarou a polícia e ignorou preconceitos para exercer e gozar, sem transigência nem culpas, aquilo que lhe era mais caro — sua Liberdade.
E livre viveu, tanto nas ruas da Lapa como na cadeia, já que sua liberdade não era dessas de 2ª classe que concede a qualquer cidadãozinho bem comportado o direito de ir e vir. Assim como a sua dignidade, era coisa de outra ordem, só adquirida por aqueles que, como ele, tiveram a coragem e a sabedoria necessária para buscá-la dentro de si, e com ela abrir seus próprios caminhos.

Cultuando Federico Garcia Lorca (4)

8 dUTC Abril dUTC 2010

Quando Um cão andaluz de Buñuel e Dali estreou em Paris em 1929 Lorca encontrava-se em Nova York. Aliás, nada mais absurdamente surrealista que Lorca em NY. Wall Street não resistiu …

Diz-se que o título do filme seria uma provocação da dupla ao poeta com quem teriam tido um desentendimento. Conta-nos Cláudio Willer na Revista Agulha:

“Cabe lembrar que a intenção de Buñuel e Dali, ao escolherem esse título, foi insultar García Lorca, com quem haviam rompido. A resposta de Lorca à ruptura com Dali foi o auto-exílio, e a conseqüente criação do Poeta em Nova York, sua obra mais frenética e dilacerada (não estou especulando, porém baseando-me na sólida biografia de Lorca por Ian Gibson).”

Diz-se também que Viaje a La luna, o roteiro escrito por Lorca em sua temporada novaiorquina teria sido uma resposta a esse fato.

Alice Gomes no site Estação Virtual:

” Após uma conversa com o cineasta e pintor mexicano Emilio Amero, em que falaram da estréia de Um Cão Andaluz, Lorca escreveu o roteiro deViaje a La Luna em poucos dias. Um manuscrito de 14 páginas divido em 72 cenas”.
O filme acabou não sendo realizado e o roteiro, engavetado ao longo de anos, reapareceu recentemente e foi filmado pelo cenógrafo e cineasta catalão Federico Amat .

No vídeo abaixo, dois trechos dele pescados no you tube. De quebra, o Chien Andalou completo com um texto escrito por Salvador Dali.

Neste texto transcrito da revista Recine (dezembro de 2006) Dali escreve sobre seu filme. Suspeito que o último parágrafo seja de Buñuel.

UM CÃO ANDALUZ
Salvador Dali

Nosso filme, realizado à margem de qualquer intenção estética, nada tem a ver com nenhum daqueles ensaios chamados de cinema puro. Ao contrário, a única coisa importante no filme é o que nele se passa.
Trata-se da simples notação, da constatação de fatos. O que cava um abismo de diferença com outros filmes é que tais fatos, em lugar de serem convencionais, fabricados, arbitrários e gratuitos, são fatos reais, que são irritantes, incoerentes, sem explicação nenhuma. Somente a imbecilidade e a cretinice inerente à maioria dos homens de letras e de épocas particularmente utilitaristas tornam possível a crença de que os fatos reais eram dotados de uma significação clara, um sentido normal, coerente e adequado. Daí a supressão oficial do mistério, o reconhecimento da lógica nos atos humanos etc.

Os escritores, sobretudo, e os novelistas em particular, têm contribuído para a fabricação de um mundo convencional e arbitrário que eles impõem como real.Este mundo onde tudo é explicado porque nos é ensinado, está hoje totalmente esmagado pelas pesquisas da psicologia moderna. Tudo nele é voluntariamente escravo e podridão mas ainda serve maravilhosamente para apascentar os porcos e as pessoas de bons sentimentos. No entanto, ao lado da realidade confeccionada na medida da imbecilidade e das seguranças necessárias, há os fatos, os simples fatos independentes das convenções; há os crimes hediondos; há os atos de violência inqualificáveis e irracionais que iluminam periodicamente com seu brilho reconfortante e exemplar o desolador panorama moral. Há o tamanduá, há simplesmente o urso das florestas, há etc.

O tamanduá atinge dimensões superiores às do cavalo; possui uma ferocidade enorme; tem uma força muscular excepcional; é um animal terrível e, no entanto nutre-se apenas de formigas servindo-se de uma língua de meio metro de comprimento e fina como um fio.

O urso das florestas, pavor dos habitantes dos bosques, se nutre de mel. Procedendo assim, porco a pouco, a ciência poderá analisar a anatomia e a fisiologia do tamanduá. A psicanálise poderá demonstrar os mais sutis mecanismos psíquicos e estudar novamente os fatos humanos. Mas, apesar disso, nem os fatos, nem a língua do tamanduá se tornarão menos enigmáticos ou irracionais.

Se tomei exemplos simples de história natural, isto não foi por acaso, visto que, com o disse Max Ernst, a história do sonho, do milagre, a história surreal é de fato e essencialmente uma história natural.

Nota: Um cão andaluz teve um sucesso sem precedentes em Paris; o que nos causa indignação como em qualquer outro sucesso de público. Mas acreditamos que o público que aplaudiu Um cão andaluz é um público embrutecido pelas revistas e a “divulgação” da vanguarda, que aplaude por esnobismo tudo aquilo que lhe parece novo ou bizarro. Esse público não compreende o fundamento moral do filme, que é dirigido diretamente contra ele com uma violência e uma crueldade totais. O único sucesso que conta para nós é o discurso de Eisenstein no congresso de La Sarraz e o contrato do filme com a República dos Sovietes.

Mirador, nº 39, 29 de outubro de 1929.