CRÔNICA DE UM MAR INTERIOR

4 dUTC Dezembro dUTC 2009

O Mediterrâneo do Artista

Mar Interior. Um programa desde o título. Mais que um programa. Um horizonte pessoal. Tema que o levaria a percorrer de modo compacto e simultâneo o que antes não era mais que forma deslocada e colateral – como num conto de Borges: nas margens do ainda não visto ou percebido. Hélio passou da margem para o centro, lançou estratos sobrepostos, mexendo no foco de escritemas e referenciais que antes pertenciam ao fora do quadro.
Creio ser este – na coleção dos trabalhos de Hélio Jesuíno – aquele em que liberdade e necessidade, acaso e destino rompem as divisórias e se revelam viscerais, úmidos de impressão, tirados de uma geografia própria, singular, cujas águas e correntezas nem por isso deixam de se abrir para outros mares.

Não seria esta uma atitude borgiana (eu diria quase pirandelliana), pois que Hélio nos reclama vedores e agentes necessários, diante de uma obra que guarda – na lógica do fragmento – o diálogo com o todo?

Uma coleção de obras que se comunica plenamente para dentro e para fora, das citações domésticas às demandas do outro. Um oceano de duas margens. Uma geografia que não sacrifica a liberdade e a beleza a pequenas e inomináveis razões de estado. Hélio Jesuíno trabalha em suas águas. Densas. Arquetípicas. Teatro de luz. Teatro de sombras. Espectadores agentes. De quem descobre no palco um mar de duas margens. Mar que guarda a memória da terra.

Hélio Jesuíno criou uma obra de coragem e de transformação. Um oceano de muitas margens.

Um mediterrâneo solar.

Marco Lucchesi

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