Fotomaquias (5) / Um reino distante

23 dUTC Abril dUTC 2010


FOTOMAQUIAS 3 / CABEÇAS

13 dUTC Dezembro dUTC 2009


FOTOMAQUIAS 2 / ANDARILHOS

14 dUTC Novembro dUTC 2009

O caminho dos indestinados

A viagem é seu destino, traçado nas linhas das mãos, nos cortes dos pés. Seu capital é a estrada percorrida, sua jornada — sem ponto de chegada ou partida — a própria existência.
Deambulam…
Sem prole nem paradeiro, espalham-se no mundo. Sem paredes nem passado, morando na paisagem, não cultivam a terra; andam sobre ela e sua colheita é de outra ordem. Cruzam cidades e rompem fronteiras como quem abre a porta da cozinha: sem heroísmo ou alarde.
Passam.
Como o tubarão, obtém o oxigênio do qual necessitam mediante o próprio deslocamento. A inércia lhes seria fatal.

Aplica-se bem a eles a observação de Jung sobre o arcano zero do Tarô, O Louco,paradigma dos vagabundos (com todo o respeito): ‘Quem não tem meta não perde o rumo’.

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FOTOMAQUIAS / SÉRIE 1 / OS DUPLOS

26 dUTC Outubro dUTC 2009

 
SOBRE AS FOTOMAQUIAS

Sempre fui atraído pelas técnicas mistas e a agregação de mais um elemento — a fotografia — acabou sendo um desdobramento natural do meu trabalho.
Utilizando o papel fotográfico como suporte, o desenho é obtido através da luz (solar e/ou artificial), máscaras de papel recortado e, entre outros artifícios, uma manipulação não ortodoxa da química fotográfica.
Buscando sempre a compatibilização dos recursos e peculiaridades de cada uma das linguagens, mesclando-as ou superpondo-as, cheguei a um resultado entre a gravura e a fotografia ,onde o aspecto industrial do processo fotográfico funde-se à fatura artesanal do desenho, gerando um produto híbrido e, devido à natureza das ‘matrizes’, não reproduzível.
Na seqüência do processo acrescentei aos procedimentos citados algumas imagens obtidas por câmera fotográfica que, após intervenções executadas com materiais diversos, são utilizadas nas colagens.

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Brincando nos campos do senhor Eastman: os desenhos fotogênicos de Hélio Jesuíno

Passado o primeiro e compreensível choque inicial, os artistas plásticos constataram que a fotografia longe de ser a ameaça pintada pelos alarmistas, representava na verdade um novo e fértil campo de investigação estética. Decorridos 160 anos da difusão da imagem fotográfica, este campo ainda continua a nos reservar surpresas e promessas, quando explorado por artistas com o talento e a originalidade de Hélio Jesuíno.
Trabalhando com a mesma satisfação com que Matisse realizou seus papiers colés e com o mesmo espírito irreverente com o qual Athos Bulcão efetuou suas fotomontagens, Hélio Jesuíno produziu uma série de desenhos fotogênicos*, que – no âmbito da fotografia brasileira – me parecem ter a mesma importância das Fotoformas de Geraldo de Barros, na década de 1950, e da produção de José Oiticica Filho, na década seguinte, iniciativas pioneiras que também mesclavam de forma audaciosa a imagem técnica da fotografia com o desenho, a pintura e o recorte manualmente efetuados pelo artista.
Geraldo de Barros costumava interferir diretamente sobre negativos ou sobre ampliações, riscando-os, cortando-os, desenhando sobre estes ou adicionando novos elementos tridimensionais que eram fotografados a seguir. No laboratório, limitava-se a fazer superposições (sanduíches)de negativos, criando fotomontagens ou desdobramentos de uma mesma imagem. José Oiticica Filho questionava a própria natureza do material fotográfico, produzindo pinturas originais que serviam de matrizes para cópias de contato, ou uma série de objetos (lascas e lâminas de vidro ou plástico; papel celofane; desenhos originais; máscaras e/ou recortes) empregados depois na produção de negativos destinados à ampliação ou na confecção de cópias realizadas por contato direto com o papel fotográfico.

Os procedimentos de Hélio Jesuíno se assemelham mais aos de Oiticica, à diferença de que este se concentrava na abstração (tanto geométrica quanto informal), ao passo que nas obras de Jesuíno a figura tem sempre presença proeminente. Outra diferença básica é a de que Hélio, trazendo já o sol em seu nome, não gestou suas obras na úmida escuridão do laboratório fotográfico, produzindo-as ao contrário diretamente sob a benfazeja porém caprichosa luz solar, que ora negaceando, ora se oferecendo em excesso, contribui para forjar imagens com tonalidades sempre diversas entre si.

Empregando os mais diversos procedimentos, Hélio Jesuíno produziu trabalhos de serena e delicada beleza que, talvez por trazerem embutidos em seu âmago a luz que os consubstanciou, são impregnados de luminosa alegria, assinalando de forma agradável o início de uma nova fase na produção deste artista que, desde a década de 1970 tem sabido se manter ativo e produtivo, mais preocupado com o fazer artístico do que com o aplauso e o reconhecimento. Postura que, aliás, distingue os verdadeiros artistas daqueles que Miguel Rio Branco qualificou um dia de meros ¨profissionais da arte¨.

Pedro Karp Vasquez

* A expressão photogenic drawings foi cunhada por um dos inventores da fotografia, o inglês Fox Talbot, para designar as imagens de suas primeiras experiências, produzidas pelo ¨lápis da natureza¨. Mas esta denominação me parece se adequar com muito mais justeza aos presentes trabalhos de Hélio Jesuíno.