Cultuando Garcia Lorca(5)

16 dUTC Abril dUTC 2010

ROMANCE DE DOM BOYSO

Caminha Dom Boyso
manhãzinha fria
a terra de muros
a buscar amiga.
Achou-a lavando
numa noite fria.
— Que fazes aí, moura,
filha de judia?
deixa meu cavalo
beber água fria.
— Rebente o cavalo
e quem o trazia,
que moura não sou, filha de judia.
Sou cristã
que aqui estou cativa.
—Se fosses cristã
eu te levaria
e em panos de seda
te envolveria;
porém se és moura
eu te deixaria.

Montou-a ao cavalo
a ver que dizia;
mas nas sete léguas
ela silencia.
Ao passar num campo
de verdes olivas
por aqueles prados
que prantos vertia!
Ai, prados! Ai, prados!
Ai, da minha vida.
Quando o rei meu pai
plantou esta oliva,
plantou-a ele aqui
mas eu a mantinha,
enquanto a rainha
a seda torcia,
meu irmão Dom Boyso
os touros corria
—E como te chamas?
—Eu sou Rosalinda,
e assim me chamaram
porque ao nascer
uma linda rosa
em meu peito eu tinha.
—Você, pelas senhas,
minha irmã seria.
Abra minha mãe
portas de alegria,
se não trouxe nora,
trouxe sua filha.

Cultuando Federico Garcia Lorca (4)

8 dUTC Abril dUTC 2010

Quando Um cão andaluz de Buñuel e Dali estreou em Paris em 1929 Lorca encontrava-se em Nova York. Aliás, nada mais absurdamente surrealista que Lorca em NY. Wall Street não resistiu …

Diz-se que o título do filme seria uma provocação da dupla ao poeta com quem teriam tido um desentendimento. Conta-nos Cláudio Willer na Revista Agulha:

“Cabe lembrar que a intenção de Buñuel e Dali, ao escolherem esse título, foi insultar García Lorca, com quem haviam rompido. A resposta de Lorca à ruptura com Dali foi o auto-exílio, e a conseqüente criação do Poeta em Nova York, sua obra mais frenética e dilacerada (não estou especulando, porém baseando-me na sólida biografia de Lorca por Ian Gibson).”

Diz-se também que Viaje a La luna, o roteiro escrito por Lorca em sua temporada novaiorquina teria sido uma resposta a esse fato.

Alice Gomes no site Estação Virtual:

” Após uma conversa com o cineasta e pintor mexicano Emilio Amero, em que falaram da estréia de Um Cão Andaluz, Lorca escreveu o roteiro deViaje a La Luna em poucos dias. Um manuscrito de 14 páginas divido em 72 cenas”.
O filme acabou não sendo realizado e o roteiro, engavetado ao longo de anos, reapareceu recentemente e foi filmado pelo cenógrafo e cineasta catalão Federico Amat .

No vídeo abaixo, dois trechos dele pescados no you tube. De quebra, o Chien Andalou completo com um texto escrito por Salvador Dali.

Neste texto transcrito da revista Recine (dezembro de 2006) Dali escreve sobre seu filme. Suspeito que o último parágrafo seja de Buñuel.

UM CÃO ANDALUZ
Salvador Dali

Nosso filme, realizado à margem de qualquer intenção estética, nada tem a ver com nenhum daqueles ensaios chamados de cinema puro. Ao contrário, a única coisa importante no filme é o que nele se passa.
Trata-se da simples notação, da constatação de fatos. O que cava um abismo de diferença com outros filmes é que tais fatos, em lugar de serem convencionais, fabricados, arbitrários e gratuitos, são fatos reais, que são irritantes, incoerentes, sem explicação nenhuma. Somente a imbecilidade e a cretinice inerente à maioria dos homens de letras e de épocas particularmente utilitaristas tornam possível a crença de que os fatos reais eram dotados de uma significação clara, um sentido normal, coerente e adequado. Daí a supressão oficial do mistério, o reconhecimento da lógica nos atos humanos etc.

Os escritores, sobretudo, e os novelistas em particular, têm contribuído para a fabricação de um mundo convencional e arbitrário que eles impõem como real.Este mundo onde tudo é explicado porque nos é ensinado, está hoje totalmente esmagado pelas pesquisas da psicologia moderna. Tudo nele é voluntariamente escravo e podridão mas ainda serve maravilhosamente para apascentar os porcos e as pessoas de bons sentimentos. No entanto, ao lado da realidade confeccionada na medida da imbecilidade e das seguranças necessárias, há os fatos, os simples fatos independentes das convenções; há os crimes hediondos; há os atos de violência inqualificáveis e irracionais que iluminam periodicamente com seu brilho reconfortante e exemplar o desolador panorama moral. Há o tamanduá, há simplesmente o urso das florestas, há etc.

O tamanduá atinge dimensões superiores às do cavalo; possui uma ferocidade enorme; tem uma força muscular excepcional; é um animal terrível e, no entanto nutre-se apenas de formigas servindo-se de uma língua de meio metro de comprimento e fina como um fio.

O urso das florestas, pavor dos habitantes dos bosques, se nutre de mel. Procedendo assim, porco a pouco, a ciência poderá analisar a anatomia e a fisiologia do tamanduá. A psicanálise poderá demonstrar os mais sutis mecanismos psíquicos e estudar novamente os fatos humanos. Mas, apesar disso, nem os fatos, nem a língua do tamanduá se tornarão menos enigmáticos ou irracionais.

Se tomei exemplos simples de história natural, isto não foi por acaso, visto que, com o disse Max Ernst, a história do sonho, do milagre, a história surreal é de fato e essencialmente uma história natural.

Nota: Um cão andaluz teve um sucesso sem precedentes em Paris; o que nos causa indignação como em qualquer outro sucesso de público. Mas acreditamos que o público que aplaudiu Um cão andaluz é um público embrutecido pelas revistas e a “divulgação” da vanguarda, que aplaude por esnobismo tudo aquilo que lhe parece novo ou bizarro. Esse público não compreende o fundamento moral do filme, que é dirigido diretamente contra ele com uma violência e uma crueldade totais. O único sucesso que conta para nós é o discurso de Eisenstein no congresso de La Sarraz e o contrato do filme com a República dos Sovietes.

Mirador, nº 39, 29 de outubro de 1929.

CULTUANDO FEDERICO GARCIA LORCA (3)

6 dUTC Abril dUTC 2010


VACA

Espichou-se a vaca ferida;
árvores e arroios trepavam por seus chifres.
Seu focinho sangrava no céu

Seu focinho de abelhas
sob o bigode lento de babas.
Um alarido branco pôs de pé a manhã.

As vacas mortas e as vivas,
rubor de luz ou mel de estábulo
baliam de olhos semicerados.

Que fiquem sabendo as raízes
e aquele menino que amola sua navalha
que podem comer a vaca.

Lá em cima empalidecem
luzes e veias jugulares.
quatro patas tremem no ar.

Que fique sabendo a lua
e essas noite de rochas amarelas:
que já se foi a vaca de cinza.

Que já se foi balindo
pelo entulho dos céus ásperos
onde merendam morte os ébrios.


Tradução de Oscar Mendes

CULTUANDO FEDERICO GARCIA LORCA (2)

5 dUTC Abril dUTC 2010

Impressionou-me outro dia a leitura do texto do curador de uma exposição que, decodificando as obras expostas, explicava-nos que tratava-se de ” investigar as aparentemente esgotadas possibilidades expressivas da linha”. A linha em questão seria “não narrativa”, (como soem ser alguns dos meus esgotados contemporâneos) na qual o curador apontava alguns “ruídos desagregadores”o que, suponho, seria um elogio. Na imagem que acompanhava o texto só identifiquei, na minha surdez cega e ignorante, uma rabisqueira sem sentido…
Imerso que ando em Lorca, socorreram-me alguns de seus desenhos com sua linha falante e melodiosa . Encantatória como seus versos. Embarquei ou, melhor dizendo, peguei uma carona nessa trilha e ainda ganhei essas palavras de outro grande poeta, o Marco Lucchesi :

Hélio Jesuíno é a um tempo
engenheiro e poeta do sonho
de uma alteridade em flor,
aberta, solar e misteriosa.

Abaixo , os desenhos originais de Lorca e as minhas intervenções.





CULTUANDO FEDERICO GARCIA LORCA (1)

2 dUTC Abril dUTC 2010

Lorca é uma paixão antiga e a visualidade de sua poesia sempre me fascinou.
Pensei inicialmente em incluir este cão assírio no bestiário mas nessa retomada de sua leitura o exuberante delírio de suas imagens me estimularam a iniciar uma série que abro com os dois poemas abaixo.


PAISAGEM COM DOIS TÚMULOS E UM CÃO ASSÍRIO

Amigo,
Levanta-te para que ouças a uivar
O cão assírio.
As três ninfas do câncer estiveram bailando,
meu filho

Trouxeram umas montanhas de lacre vermelho
e uns lençóis duros onde estava o câncer adormecido.
O cavalo tinha um olho no pescoço
e a lua estava num céu tão frio
que teve de rasgar o seu monte de Vênus
e afogar em sangue e cinza os cemitérios antigos

Amigo,
Desperta, que os montes ainda não respiram
e as ervas de meu coração estão em outro sítio.
Não importa que estejas cheio de água do mar.
Amei por muito tempo um menino
que tinha uma peninha na língua
e vivemos cem anos dentro de uma faca.
Desperta. Cala. Escuta. Ergue-te um pouco.
O uivo
é uma longa língua arroxeada que abandona
formigas de espanto e licor de lírios.
Já se aproxima da rocha. Não alongue suas raízes!
Chega perto. Geme. Não soluces em sonho, amigo.

Amigo!
Levanta-te para que ouças uivar
o cão assírio.

LUA E PANORAMA DOS INSETOS

(O poeta pede ajuda à Virgem)


Rogo à divina Mãe de Deus,
rainha celeste de todas as coisas criadas,
que me dê a pura luz dos animaizinhos
que têm uma só letra em seu vocabulário
animais sem alma, simples formas,
longe da desprezível sabedoria do gato,
longe da profundeza fictícia dos mochos,
longe da escultórica sapiência dos cavalos,
criaturas que amam sem olhos,
com um só sentido de infinito ondulado
e que se agrupam em imensos montões
para ser comido pelos pássaros.
rogo a única dimensão
que têm os pequenos animais planos,
para desviar-se de coisas cobertas de terra
sob a dura inocência do sapato;
não há quem chore porque compreenda
o milhão de mortezinhas que o mercado tem,
essa multidão chinesa das cebolas decapitadas
esse grande sol amarelo de velhos peixes esmagados
Tu, Mãe sempre temível. Baleia de todos os céus.
Tu, Mãe sempre jovial. Vizinha da salsa prateada.
Sabes que eu abranjo a carne mínima do mundo

Traduções de Oscar Mendes