COPACABANA

28 dUTC Março dUTC 2010

Nasci e fui criado no bairro. Hoje, morador do Catete, mantenho ainda o atelier em Copacabana, freqüento suas praias, bebo em seus bares, misturo-me à babel de tipos que lá habitam, trampam, trabalham, namoram; gente das mais diversas procedências, credos e matizes, miscigenando vícios sagrados e podres virtudes.
Um universo humano dessa riqueza e complexidade atraiu, como não poderia deixar de ser, os olhares de um sem número de escritores, artistas, cineastas. O material é farto e diversificado como sua fonte de origem.
Inicialmente pensei em várias postagens em seqüência como no bestiário. Mas repensei o formato e, aproveitando-me da agilidade oferecida pelo blog, optei por uma postagem única que irei reeditando e engrossando conforme novos textos forem surgindo.
Ando garimpando no caos de minhas estantes contos e poemas que abordem o tema; achei alguns, continuo na cata de outros. Dei uma tarrafada na net e outros peixes vieram na rede. Aceito lembranças e sugestões.
Para as ilustrações criei um painel misturando a zorra toda e inseri –via photoshop – algumas imagens da série “Pedra do Cantagalo” , já postada no blog (veja aqui)
Fragmentos de textos e imagens formam um mosaico dessa terra de todos e de ninguém, feita de maresia e gás carbônico, sal, areia, asfalto e cimento.
Seu dinamismo e amplitude, ai de nós, estarão sempre muito além de nossa capacidade de apreendê-la em sua demasiada humanidade, exposta entre mares e montanhas, dias sombrios, noites iluminadas.

FIM DE TARDE / Celso Japiassu

Talvez tenham escolhido um bar tão movimentado como o Real Chopp, em plena Barata Ribeiro, para não tornar a conversa íntima demais. Ele falava, ela escutava e por sua vez rebatia algo que ele acabara de dizer; um detalhe da sua fala, algum argumento mal usado, um sentimento obscuro.

O fim da tarde, nas ruas internas de Copacabana, é marcado pelo barulho dos motores nos engarrafamentos da hora do rush. Talvez por isso, de vez em quando, um dos dois falava mais alto olhando diretamente para o rosto do outro. Depois ela baixava a cabeça e ele olhava para os lados sem saber o que procurava. Ficavam assim por um momento e depois retomavam a discussão.

Ela picava em pequenos pedaços o guardanapo de papel, ele mantinha as mãos nos bolsos. Havia tirado o paletó e a gravata e arregaçado as mangas da camisa para enfrentar o calor. Ela vestia uma saia simples, justa, com um paletó feminino, de acordo com a moda adotada pelas mulheres que exercem cargos executivos. Os dois copos de chope estavam quentes e sem espuma.

Em seguida ele pegou seu paletó e se levantou, deixou um dinheiro em cima da mesa junto com a conta que havia pedido ao garçon e foi embora pela Rua Paula Freitas na direção da praia. Ela ficou durante alguns momentos olhando os automóveis parados no engarrafamento. Então levantou-se, atravessou a rua e pegou um ônibus na direção do Jardim de Alah. O calor batia os 40 graus.


COPACABANA / Vinicius de Moraes

Esta é Copacabana — ampla laguna
Curva e horizonte, arco de amor vibrando
Suas flechas de luz contra o infinito.
Aqui meus olhos desnudaram estrelas
Aqui meus braços discursaram a lua
Desabrochavam feras dos meus passos
Nas florestas de dor que percorriam.
Copacabana, praia de memórias!
Quantos êxtases, quantas madrugadas
Em teu colo marítimo! Esta é a areia
Que tanto enlameei com minhas lágrimas.
Aquele é o bar maldito. Não estás vendo
Aquele escuro ali? É um obelisco
De treva: cone erguido pela noite
Para marcar por toda a eternidade
O lugar onde o poeta foi perjuro.
Ali tombei, ali beijei-te ansiado
Como se a vida fosse terminar
Naquele louco embate. Ali cantei
À lua branca, cheio de bebida
Ali menti, ali me ciliciei
Para gozo da aurora pervertida.
(…)

Ô, COPACABANA / João Antonio
“[…] esta hora cinza, chumbo carregado, hora parada, neutra, a que os boêmios, os pederastas, os artistas da noite, as mulheres e seus cáftens, as curriolas da galeria chamam de rabo da manhã.

Sete da noite, quando Copacabana troca de mão, num golpe, na muda da turma de garçãos, barbeiros, balconistas, motoristas de táxi, botequineiros, e o resto dos serviçais, a luz elétrica acende o olho diferente, vesgo da noite na galeria.
A moçada sai da Zona Norte ou dos subúrbios lá longe, toma suas luzes como modelo de vanguarda no Rio. No bairro se sabe vestir bem, comer bem, beber o melhor. E os meninos, cabeça cheia, começam a descer dos ônibus xexelentos, vindos do outro lado da cidade, o bravo e esquecido, onde moram três quartos das gentes do Rio de Janeiro. Sem praia e sem recreio. A meninada principia na galeria Alaska, certa de que com o físico, juventude, gingas, bossa, conseguirá o melhor em mulheres, boates, facilitações e exuberância.”

A VIÚVA NA PRAIA / Rubem Braga

A morte do homem foi comentada no café; eu soube, assim, que ele passara muitos meses doente, sofrera muito, morrera muito magro e sem cor. Eu não dera por sua falta, nem soubera de sua doença.
(…)
E agora estou deitado na areia, vendo a sua viúva. Deve uma viúva vir à praia? Nossa praia não é nenhuma festa; tem pouca gente; além disso, vamos supor que ela precise trazer o menino, pois nunca a vi sozinha na praia. E seu maiô é preto. Não que o tenha comprado por luto; já era preto. E ela tem, como sempre, um ar decente; não olha para ninguém, a não ser para o menino, que deve ter uns dois anos.(…)

LUAR SOBRE COPACABANA / Celso Japiassu

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.

Invisível-indivisível, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.

Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.

Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.

O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.

O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.
Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos ,
habitação do medo , onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento .

PEDRA DO CANTAGALO

23 dUTC Outubro dUTC 2009

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MORRO DO CANTAGALO

Tenho com o morro do Cantagalo uma relação antiga.
Ainda menino, impactava-me a imponência negra da pedra, entrevista da janela do meu quarto.

No coração de Copacabana cercada pelos prédios , emergia colossal acima deles, com suas gretas e cavernas acendendo a imaginação do menino, sugerindo mistérios e fabulações, povoando-lhe os sonhos.

Hoje, de novo nas cercanias e com atelier ao sopé do mesmo flanco, a imagem da montanha envolvida pelo movimento caótico da cidade a roçar-lhe as faldas impôs-se à minha retina com uma força ainda mais sedutora.

Os trabalhos surgiram dessas impressões geradas pela beleza bruta e a solidez milenar da pedra, pelas fendas e angulações sugerindo figuras e arquétipos inscritos na rocha, pelas evocações de antigos sonhos e vivências

Ressalte-se que as obras aqui reunidas foram realizadas ao longo dos últimos 5 anos em períodos variados, interpoladas por outras séries executadas em técnicas diversas.

Recorrente, a Pedra impunha-se no meio do caminho.

A cada nova investida, nova técnica, com o subseqüente desdobramento do tema em seus múltiplos aspectos e abordagens.

Prescindi assim de uma unidade plástica da série em favor da referida multiplicidade, imposta pela própria natureza intermitente do processo no qual foi concebida.

Ao final, o aspecto multifário e fragmentado do conjunto reúne-se, monolítico, em função do eterno retorno ao tema.

(para ver as imagens clique aqui)
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